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EDITORIAL
Licínio Nunes
O estado decadente e
sombrio da cidade,
nesta zona riberinha,
deixa perceber
o estado de completo
abandono em que a
gestão municipal
das diferentes e
sucessivas vereações
e presidências nunca
tiveram a coragem
ou a vontade
política de alterar
com os recursos
financeiros próprios
Porto, finais do século passado, ou seja, há cerca de 20 anos.
Foi ontem, apenas ontem!
Toda uma cidade adormecida, cinzenta, entristecida e votada ao
completo abandono, com edifícios em ruína, entaipados, com
fachadas esventradas e janelas podres, com cães esfomeados
e vadios vagueando pelas ruas, pedintes acoitados nas ruínas e
edifícios abandonados, um cheiro a podre no ar e as caixas de
cartão transformadas em colchões ou em cobertores, as ruas
escorridas de óleo pestilento dos carros do lixo, as peixeiras
apregoando pela manhã e os comerciantes locais, abrindo as
portas de um negócio bafiento, herdado do seu antecessor, mas
perfeitamente decrépito e desenquadrado da realidade, onde se
via o pequeno café local, adaptado da forma possível ao velho
edifício, sem atender a quaisquer regras e obrigações legais, de
higiene ou segurança, com um quarto de banho improvisado
unissexo, perfeitamente empestado de uma amálgama de
odores a bafio e podre, numa visão detestável e asquerosa do
local!
As casas de habitação acumulavam famílias em magotes, onde
o patriarca, qual película de Fellini, partilhava a cama com as
filhas, e estas entre elas e os parceiros, numa lotação de 8
pessoas, amontoadas numa casa onde apenas havia um quarto.
Sim, era a miséria escondida e envergonhada de braço dado,
com a pobreza instalada, quase secular, assumida e calada
entre portas e depois visível pelos laços de cumplicidade e
famíliares dos seus habitantes, como se constituíssem um gueto,
ou uma casta à parte, numa cidade secular, mas também ela
empobrecida, empedernida, austera na sua granítica genética
Portugal está na moda!...
e, sustentada pelas estacas que deixam cruzar rios e regatos,
esgotos e labirintos, que nascendo no alto da cidade, desde
Arca d’Água ou do Monte Aventino, vão desaguar depois ao rio!
O estado decadente e sombrio da cidade, nesta zona ribeirinha,
que se estende como diz a canção de Rui Veloso “da Baixa à
Cantareira”, deixa perceber o estado de completo abandono em
que a gestão municipal das diferentes, e sucessivas, vereações
e presidências nunca tiveram a coragem, ou a vontade política,
de alterar com os recursos financeiros próprios, ou o apoio
do governo central também não permitiram, pese embora a
existência de gabinetes e organismos existentes para tratar e
resolver os problemas, mas que ao longo de décadas, eram um
empecilho para a renovação tímida que alguns aí quiseram fazer,
ou um crivo de burocracia que desmotivava o mais ousado e
temerário empreendedor, senhorio ou comerciante, quando
pretendia alterar o que quer que fosse naquela área da cidade.
Era como se tudo se conjugasse para não funcionar ou para
impedir que algo funcionasse, e consequentemente tendo como
objectivo final o imobilismo completo e absoluto, que levariam a
cidade em poucos anos a ser apenas ocupada por misteriosos
e resistentes habitantes, que teimosamente aí se mantinham,
apenas porque faziam parte daquele quadro pétreo e cinzento,
sem laivos de luz e de esperança e onde, nascer era uma
mala pata que depois era transmitida de geração em geração,
exactamente como se fosse um desígnio obscuro, hereditário e
fatalmente incontornável!
Segue na próxima edição
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